A Itália que chegou antes de mim

Nelson Santillan

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Por Cesar Miranda Ribeiro*
Há países que conhecemos viajando. Outros chegam até nós muito antes de colocarmos os pés em seu território.
A Itália chegou à minha vida dessa segunda maneira.
Sou bisneto de italiano. Meu bisavô se chamava Pietro Paolo Marmo. Nasceu em 19 de janeiro de 1853, em Casalbuono, na província de Salerno, no sul da Itália. Ainda no século XIX, atravessou o Atlântico e veio para o Brasil. Aqui, tornou-se Pedro Paulo
Mármore, casou-se em Carapina, no Espírito Santo, em 1882, constituiu sua família e morreu em Vitória, em 1928.

Durante muitos anos, porém, eu conhecia essa história apenas como se conhece uma fotografia antiga de família: sabia que existia, mas não conhecia todos os seus detalhes. Foi somente em 1998 que comecei a procurar mais profundamente minhas origens.
Passei a buscar documentos, nomes, lugares e pistas que pudessem me aproximar daquele homem que havia feito, mais de um século antes, uma viagem que mudaria para sempre a história da minha família.

Em algum momento dessa busca, encontrei a certidão de casamento de Pietro Paolo em Vitória. E então o nome deixou de ser apenas uma lembrança familiar. Ele ganhou data, lugar, assinatura e existência documental.

Anos depois, encontrei também uma referência extremamente significativa. Em uma publicação oficial do Espírito Santo de 1906, o nome de Pedro Paulo Mármore aparece em uma relação fiscal do município de Vitória.

Meu bisavô estava ali.

Não em uma árvore genealógica feita muitas décadas depois, mas em um documento produzido quando ele ainda estava vivo, inserido na vida cotidiana da cidade que havia escolhido para construir sua família. Essa descoberta me fez perceber que procurar um antepassado não é apenas procurar uma pessoa. É procurar os vestígios de uma vida.

E talvez exista uma curiosidade ainda maior nessa história.

Em italiano, marmo significa mármore.

Meu bisavô trouxe da Itália um sobrenome que, no Brasil, acabou sendo traduzido para Mármore. Não sei se existe qualquer significado especial nisso. Provavelmente é apenas uma dessas coincidências que a vida nos oferece. Mas gosto de pensar que existe uma certa poesia em carregar um nome associado a uma matéria que atravessa séculos, presente em monumentos, igrejas, esculturas, lápides e obras de arte.

Porque, de alguma maneira, minha vida profissional também acabou sendo marcada pela preservação da memória. Trabalhei na televisão, na Globo, na UniFacha, na RioFilme e atualmente no Museu da Imagem e do Som. Em diferentes momentos e circunstâncias, estive envolvido com cinema, audiovisual, cultura, educação e patrimônio. E, sempre que tive oportunidade,
procurei valorizar a presença italiana e a contribuição dos italianos para o Brasil.

Talvez eu não tenha percebido imediatamente, mas havia uma ligação entre essas escolhas. A memória que eu procurava preservar profissionalmente era também a memória de uma história que estava dentro da minha própria família.

Essa percepção ganhou uma dimensão especial em 2024, quando, como presidente do MIS, propus a realização da exposição “Heranças: 150 anos da imigração italiana no Brasil”.

Não era apenas uma exposição sobre imigração. Para mim, era também uma forma de olhar para trás.
O MIS possui uma história profundamente ligada à cultura italiana. Seu primeiro diretor, Maurício Quadrio, era italiano. Sua sede principal foi idealizada em 1922 por um arquiteto Italiano. Décadas depois, eu estava à frente da instituição e participava da
criação de uma exposição dedicada justamente aos 150 anos da presença italiana organizada no Brasil.

E ali estava novamente Pietro Paolo Marmo.

Na abertura da exposição, pude falar publicamente sobre meu bisavô, sobre Casalbuono e sobre a trajetória daquela família que começou com um homem que deixou a Itália no século XIX e construiu sua vida no Espírito Santo.

Foi uma maneira de aproximar a minha história pessoal da história de milhões de brasileiros que carregam dentro de suas famílias alguma lembrança, algum sobrenome ou alguma tradição trazida pelos imigrantes italianos. A história do Brasil também foi construída assim.

Foi construída por pessoas que atravessaram oceanos sem saber exatamente o que encontrariam do outro lado. Pessoas que deixaram suas cidades, suas famílias e suas referências para começar novamente em uma terra distante.

Meu bisavô fez esse caminho. E eu, muitos anos depois, desejo conhecer o caminho contrário.

Ele saiu de Casalbuono para o Brasil. Eu agora penso ir ao encontro de Casalbuono.

Existe algo de profundamente simbólico nisso. Talvez eu não esteja simplesmente querendo conhecer a Itália.

Talvez esteja indo conhecer o lugar de onde uma parte da minha história saiu há mais de 170 anos. Durante toda a minha vida, a Itália esteve presente de muitas maneiras. Esteve na minha família, no meu sobrenome, na cultura, no cinema, na música, na arquitetura, na gastronomia e, naturalmente, no futebol.

Na Copa do Mundo, a Itália sempre foi o segundo país para o qual torci. E sempre me emocionei quando a Itália entrava em campo.
Pode parecer uma coisa pequena, mas não é. Essas escolhas afetivas são algumas das maneiras pelas quais uma herança cultural permanece viva.

Às vezes, não sabemos explicar exatamente por que determinado país nos emociona. Até que um dia encontramos um nome, uma certidão, uma fotografia ou uma cidade e percebemos que talvez a resposta estivesse ali o tempo todo.

Pietro Paolo Marmo saiu de Casalbuono. Pedro Paulo Mármore morreu em Vitória.

Entre esses dois nomes existe uma vida inteira. E entre aquela vida e a minha existem gerações. O mais curioso é que, ao longo da minha trajetória profissional, procurei tantas vezes preservar a memória dos outros que acabei descobrindo que também carregava uma memória esperando para ser preservada.

Hoje, quando penso na Itália, não penso apenas no país que admiro. Penso em uma casa que ainda não conheci. Penso em Casalbuono. Penso em Salerno.

Penso em um jovem chamado Pietro Paolo que, em algum momento do século XIX, decidiu atravessar o oceano. Penso no Espírito Santo, onde ele construiu sua família.

Penso em Vitória, onde seu nome apareceu nos registros públicos e onde ele morreu em 1928.

Penso no Brasil que recebeu aquele imigrante. E penso no Brasil que seus descendentes ajudaram a construir. Talvez seja esse o verdadeiro significado de uma herança. Ela não é apenas aquilo que recebemos. É também aquilo que escolhemos preservar, compreender e transmitir.

Meu bisavô atravessou o Atlântico trazendo consigo um nome italiano. Quase dois séculos depois, esse nome continua me levando de volta à Itália.

E talvez seja por isso que, quando finalmente chegar a Casalbuono, eu não sinta que estou chegando a um lugar completamente desconhecido.

Talvez eu sinta que, depois de tantos anos, estou finalmente chegando a uma parte da minha própria casa.
A Itália chegou antes de mim. Agora chegou a minha vez de encontrá-la.

*O autor é Jornalista, Radialista, professor e atualmente é Presidente da Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

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